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A Lanterna na Popa / Roberto Campos

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A Ética da Liberdade / Murray Rothbard

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POPULISMO FISCAL: O LUXO MAIS CARO DO BRASIL

Imagine um imposto que o governo cobra de você todos os dias, mas sem mandar boleto, sem passar pelo Congresso e sem nem avisar. Esse imposto existe, e se chama inflação. A cada vez que o preço do arroz sobe, o aluguel aumenta ou o salário parece encolher cada vez mais antes do fim do mês, o Estado já cobrou sua parte. Ludwig von Mises, o pai da economia austríaca, que dedicou a vida a estudar o poder do dinheiro, dizia que a inflação é um método de confisco de riqueza. Ela tira dos que produzem e poupam, e entrega aos que gastam sem limite: o Governo. Nos últimos anos, o Brasil redescobriu uma velha tentação: a de acreditar que basta o Estado apertar o botão da impressora monetária para resolver seus problemas. E por incrível que pareça, por um breve momento, tudo pareceu dar certo. O consumo reagiu, o crédito fluiu e a economia respirou. Era o “dinheiro mágico” comprando tempo político. O governo, na figura do atual chefe do Poder Executivo, diz lutar pelos pobres, mas é a própria inflação, gerada por seus gastos, que empobrece quem tem menos. É redistribuição ao contrário: tira de quem trabalha e dá a quem promete. Enfim, a ignorância! Mas, como alertava Friedrich Hayek, as boas intenções do intervencionismo econômico, pavimentam o caminho para a servidão. A prosperidade gerada pelo gasto artificial é um espelho: reflete otimismo no curto prazo, mas distorce a realidade vivida pelo país. Quanto mais o Estado “cria” dinheiro, mais desorganiza os preços, reduz o poder de compra e, ironicamente, amplia a desigualdade que diz tanto combater em período eleitoral e em discursos vazios. Nós, brasileiros, conhecemos bem esse roteiro. O gasto público avança mais rápido que a produção, a dívida cresce e o Banco Central, na sua condição de órgão técnico independente, é forçado a subir juros para conter a inflação, fabricada pelo próprio governo. É o paradoxo da “mão que dá e tira”, onde o Estado injeta liquidez com uma mão e confisca poder de compra com a outra. O resultado, é este ciclo perverso que vivemos. Quanto mais se promete “estimular a economia”, mais se asfixia o cidadão comum com impostos invisíveis, créditos caros e um custo de vida que não para de subir. Nada é mais injusto do que ver o esforço de uma vida inteira perder valor de um dia para o outro. Quando o dinheiro se desvaloriza, não é apenas a moeda que enfraquece, é o trabalho que perde sentido, a poupança que se dissolve e o futuro que fica cada dia mais distante. Estabilidade não é um número qualquer em uma planilha excel, é o direito da pessoa natural de confiar que, o que você constrói hoje, continuará valendo amanhã. Friedman resumiu de forma cirúrgica esse pensamento, dizendo: “A inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário.” Ou seja, não existe inflação “espontânea”, nem culpa do “mercado”. Existe excesso de gasto e falta de coragem política para dizer “não” ao populismo econômico. Ao contrário das soluções mágicas que costumam seduzir a política, o crescimento econômico genuíno não nasce da impressão de dinheiro, mas do aumento da produtividade. A prosperidade não se decreta, ela se constrói com trabalho, inovação e responsabilidade. E nenhuma economia consegue florescer, onde falta confiança. Ela só existe quando a moeda mantém ao menos o seu valor, ou seja, quando o que vale hoje continuará valendo amanhã. Quando o governo anuncia grandes pacotes de investimento e programas de incentivo, o que salta aos olhos são as inaugurações, os discursos e as promessas de prosperidade. O que não aparece é o outro lado da conta: o poder de compra que desaparece, a poupança que se desvaloriza e os projetos que deixam de sair do papel por falta de previsibilidade. A inflação, nesse contexto, é o imposto mais silencioso. Ela não é votada nem publicada em decreto, mas atinge todos igualmente e, quase sempre, pesa mais sobre quem tem menos. Enquanto o Estado garante que está “estimulando a economia”, o cidadão percebe o contrário: o pão, o transporte e a conta de luz ficam mais caros, e o orçamento familiar encolhe um pouco mais a cada mês. A verdadeira responsabilidade de um governo não é gastar mais, mas gastar melhor. Não existe prosperidade duradoura quando o valor do dinheiro muda ao sabor da política. Quando a moeda perde sua força, o trabalho perde sentido e a confiança, que é o alicerce de qualquer economia, começa a ruir. Responsabilidade fiscal não é frieza ou insensibilidade social, é respeito com os direitos fundamentais das pessoas, que ao menos deveriam garantir não apenas o mínimo necessário para uma existência digna, mas também são instrumentos de proteção dos indivíduos frente às ações do Estado. Respeito por quem acorda cedo, paga impostos e tenta planejar a vida. Respeito pelas próximas gerações, que não merecem herdar dívidas criadas por promessas de curto prazo de um governo irresponsável. A inflação é o sintoma mais cruel da irresponsabilidade pública. Ela corrói a renda, desorganiza o esforço e faz o cidadão pagar por erros que não cometeu. Controlar os preços não é uma questão de planilha, é uma questão de dignidade nacional. O exemplo mais próximo está logo ao lado. A Argentina viveu, nos últimos anos, o retrato do que acontece quando o gasto público descontrolado e a emissão de moeda se tornam política permanente. Décadas de populismo fiscal corroeram o valor do peso e a confiança da população, levando à dolarização informal e à perda quase total do poder de compra. A lição é dura, mas clara: quando a política ignora a matemática, a economia cobra em prateleiras vazias, salários insuficientes e um futuro cada vez mais caro. E mesmo com o exemplo na porta do lado, o Brasil parece flertar com o mesmo erro que afundou o país vizinho. Subestima a matemática, prioriza o curto prazo e acha que gasto público é sinônimo de progresso. Mas não há prosperidade, quando o Estado consome o
Quando a IA escuta mais que o chefe: o que isso diz sobre nós?

Segundo uma pesquisa da Workplace Intelligence em parceria com a INTOO (2023), 47% dos profissionais da geração Z afirmam receber melhores conselhos de carreira do ChatGPT do que de seus líderes diretos. À primeira vista, o dado pode parecer um traço geracional. Mas, ao aprofundar os resultados, percebe-se que a questão é mais estrutural do que etária. Mais da metade dos profissionais entrevistados, de todas as faixas, afirmam sentir-se sozinhos em relação ao próprio desenvolvimento de carreira. E apenas um em cada três sente que seu líder sabe, de fato, orientá-lo. O dado é chocante à primeira vista, mas o mais incômodo é o que ele revela: a lacuna de escuta e conexão que se instalou entre líderes e liderados. Estamos atravessando a maior crise de saúde mental da história. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, é o país mais ansioso do mundo. Em 2024 teve o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos, foram 472 mil licenças concedidas, um aumento de 67% em relação à 2023, segundo dados do Ministério de Previdência Social. Tudo isso acontece enquanto vivemos uma digitalização sem precedentes: processos, interações e até emoções vêm sendo mediados por algoritmos, telas e plataformas. Tudo ficou mais rápido, mais eficiente, com mais opções à disposição e, paradoxalmente, mais solitário. A produtividade cresceu, mas o senso de propósito, pertencimento e vínculo humano parece ter se diluído no caminho. Na dicotomia entre a hiperconexão digital e a desconexão humana, será que estamos preparados para liderar na era da digitalização de tudo? Parece que não. Mas ela já começou. Participei recentemente de um evento com dezenas de lideranças de RH e a mensagem era uníssona: precisamos repensar a gestão. Uma das painelistas apresentou uma previsão de que as novas gerações deverão ter, em média, até 40 empregos ao longo da vida. De acordo com o relatório Work Change Report do LinkedIn, profissionais que ingressam no mercado de trabalho atualmente estão propensos a ter o dobro de empregos ao longo de suas carreiras em comparação com 15 anos atrás. Permanecer dois anos numa empresa já será uma conquista. O foco, portanto, deixou de ser reter. O desafio agora é gerar sentido enquanto esse vínculo durar. Essa transformação tem tudo a ver com aprendizado. Segundo o painel “Skill Flux: The Death of Lifelong Expertise”, apresentado no último SXSW, a durabilidade média de uma habilidade caiu de 30 para 5 anos. E pode diminuir ainda mais até o fim da década. No Brasil, a pesquisadora Michele Schneider aprofunda esse tema no livro O Profissional do Futuro, mostrando como a obsolescência das competências exige uma ruptura nos modelos tradicionais de desenvolvimento: menos longas jornadas, mais trilhas práticas e sob demanda. Menos controle, mais cultura de aprendizagem ativa. Não é mais uma questão de saber tudo, é preciso aprender o tempo todo. O novo papel da liderança é, acima de tudo, emocional. Criar espaços seguros onde seja possível admitir dúvidas, vulnerabilidades e medos. Humildade, empatia e escuta se tornam competências tão estratégicas quanto planejamento e execução. Como defende Michele Schneider, a liderança do futuro se move entre coragem e cuidado, entre performance e presença. A palavra “humildade” vem de humus, o solo fértil. É daí que deve brotar a liderança do futuro: da consciência de que estamos todos aprendendo, todos sob o mesmo sol. Não há mais espaço para certezas absolutas nem para gurus de ocasião. O que há é a disposição de ser real. Presença, em tempos digitais, é mais do que estar online. É reconhecer, ouvir, ser acessível. Num contexto de trabalho híbrido, isso se torna ainda mais urgente. Uma pesquisa da Cigna Corporation, com mais de 10 mil trabalhadores de oito países, revelou que 61% dos profissionais se sentem solitários no trabalho, o que compromete engajamento, bem-estar e saúde mental. Estamos em uma era de mudança constante. A cada novo ciclo, mais curto que o anterior, habilidades se tornam obsoletas e outras nascem. O profissional que prospera é aquele que cultiva o mesmo espírito do aprendiz de uma criança: capaz de andar, tropeçar, levantar-se e seguir, quantas vezes forem necessárias. No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “como a IA vai mudar o trabalho?”, mas sim: por que tantos preferem ouvir a IA a seus próprios líderes? E o que isso revela sobre os espaços que deixamos vagos? A resposta não está em competir com a máquina, mas em ocupar plenamente o que só o humano pode oferecer: o vínculo, o sentido, a presença que transforma um dado em direção e uma dúvida em confiança. A IA pode otimizar tarefas. Pode até aconselhar com base em padrões. Mas ela não reconhece silêncios. Não percebe hesitações no olhar. Não sabe o que você não disse. Liderar, nesse novo tempo, é assumir esse lugar sutil, e poderoso, de estar onde os algoritmos não alcançam. Não é ser insubstituível por superioridade, mas por profundidade. Porque, ao contrário do que se teme, o futuro talvez não nos peça para sermos mais rápidos que as máquinas, mas mais humanos do que nunca. Por Maria Cerchi
Comentário a respeito de “Sobre a Liberdade”, de John Stuart Mill

“Sobre a Liberdade”, também comumente traduzido como “Ensaio sobre a Liberdade” (do original, no Inglês, “On Liberty”), trata-se de texto clássico, cuja temática situa-se entre a Ciência Política e a Filosofia, de autoria de John Stuart Mill (1806 – 1873), nome que figura entre os mais expressivos do pensamento britânico – nos campos da Economia, da Filosofia e da Lógica – do Século XIX, e que comumente se refere como uma das vozes mais influentes e definitivas do Liberalismo dito clássico. A obra pode classificar-se, no sentido estrito do termo, em Literatura e Crítica, como ensaio (o próprio Stuart Mill assim refere, no prefácio da obra), seja pela sua extensão diminuta, inferior a cem laudas, seja pelo seu formato de texto livre, sem maior rigor metodológico, aliás, ideal à exposição e ao desenvolvimento do conteúdo teórico e filosófico sobre o qual versa. No entanto, a sua dimensão enxuta não denota menor significância como reflexão: tendo sido publicada em 1859, “Sobre a Liberdade” rapidamente consagrou-se como texto de referência e, de lá para cá, galgou o patamar – que permanece – de obra seminal. Nas páginas de “Sobre a Liberdade”, Stuart Mill põe em perspectiva e sob problematização, de forma sem precedentes na tradição ocidental de pensamento em matéria de Política e Teoria do Estado (e mesmo em Direito), a questão do ajuste, com motricidade fina, entre a independência do indivíduo e a o controle da sociedade. Embora os temas da liberdade e da autoridade, logicamente, sejam clássicos na acepção estrita do termo – já estão em Sócrates e em Platão, sobretudo, em “A República” –, é na obra de Stuart Mill que tem lugar, pela primeira vez, tentativa de equacionamento, com concretude e com tecnicidade, entre autoridade e individualidade (mesmo em obras basilares do Iluminismo, como o “Segundo Tratado sobre o Governo”, de Locke, dissecação dessa natureza não havia tomado forma). Nesses moldes, subjacente à concepção de “Sobre a Liberdade”, plausivelmente, o intelecto maduro em Política e em Lógica que, à altura da sua elaboração, Stuart Mill já possui, haja vista a publicação prévia de Sistema de Lógica (1843) e de Princípios de Economia Política (1848). Como pedra de toque para o dito equacionamento entre liberdade e autoridade – ou, em outras palavras, para operar como batuta na interação entre o sujeito e a sociedade –, Stuart Mill assenta e desenvolve teoricamente o assim chamado princípio do dano. Em suma, exsurge legítima a intervenção da sociedade sobre os direitos de liberdade do indivíduo sempre que as suas ações, efetivas ou em potencial, possam causar dano a outrem; a contrario sensu, se configurará espaço de liberdade irrestrita para o indivíduo – isto é, no bojo do qual não se afigura legítima qualquer intervenção da sociedade – com relação às ações cujos resultados digam respeito exclusivamente a ele. Essa constitui premissa maior, estabelecida por Stuart Mill, assim, como regra, e que, por isso mesmo, comporta exceções, as quais, no desenrolar do ensaio, o autor enumera e disseca, ao longo dos capítulos em que se divide, após a Introdução, o texto de “Sobre a Liberdade”: II – Sobre a liberdade de pensamento e discussão; III – Sobre a individualidade como um dos elementos do bem-estar; IV – Sobre os limites da autoridade da sociedade sobre o indivíduo; e V – Aplicações. É notável, com efeito, a qualidade de elaboração e de desenvolvimento de raciocínio e o rigor lógico de Mill, no curso da obra, ao decompor exemplos e problematizações excepcionais do princípio do dano – de resto, com texto estilisticamente acessível, fluido, sem maior número de digressões, apostos ou ordens indiretas. Assim, são bastante interessantes e, de novo, com expressivo quilate de rigor lógico-argumentativo, v.g., as considerações de Mill sobre liberdade de expressão – em que exsurge pertinente, inclusive, a propagação de opinião ou ideia falsa, porque, explica ele, a sua refutação qualifica o debate. Todavia, na visão particular deste signatário, é ao discorrer sobre a liberdade social (e política) que se leem os méritos intelectuais de melhor outorga em “Sobre a Liberdade”. Especial destaque, no ponto, para a categorização de distintas formas de tirania, inserida, aqui, a tirania da maioria, excerto em que há evidente intertextualidade com Tocqueville e a sua “Democracia na América”.Na verdade, de todas as problematizações, exercícios teóricos de hipotetização etc. com os quais Mill trabalha – e não apenas no que se refere à liberdade social e política –, pelo menos um denominador comum emerge: a correlação umbilical entre liberdade e cidadania. Concebida Por Mill como limitação para os poderes do Estado, a liberdade constitui-se como estatuto, por um lado, de salvaguarda de direitos fundamentais ditos de primeira dimensão, e, por outro lado, de estruturação representativa do exercício do poder político. Aliás, ao conceber correlação íntima entre a liberdade, por definição, e o estatuto político-jurídico da cidadania, o teor de “Sobre a Liberdade” faz lembrar as reflexões (também oitocentistas, tanto na data quanto na sua conformação ideológica) de Benjamin Constant, no seu célebre “Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos”. Ademais, comentário intelectualmente honesto a respeito de “Sobre a Liberdade” não pode deixar de mencionar que muito do que se lê nas suas páginas, hoje, já um quarto de Século XXI, parece óbvio ou banal. É verdade. O melhor exemplo, talvez, a ideia de que o indivíduo é soberano sobre o próprio corpo e a própria mente. Isso não significa, no entanto, que “Sobre a Liberdade” tenha envelhecido – mesmo porque os clássicos não envelhecem. Assim nos parece, hoje, isto sim, porque muito do ideário que Stuart Mill advogava tornou-se, desde o seu tempo, ‘standards’ consolidados (neste trecho do comentário, aliás, cabe honrá-lo relembrando a sua defesa precursora da extensão do direito de voto às mulheres). Portanto, a aparente obviedade de muito do que está dito em “Sobre a Liberdade”, aos olhos de um contemporâneo, evidencia, precisamente, o tanto de arrojado que, ao tempo da sua publicação, havia nas ideias que a obra traz. Por exemplo, em meados do Século XIX, a própria noção de intimidade
Dinheiro público, ideias privadas: O dilema das universidades sob Trump

Liberdade acadêmica é um luxo que os contribuintes devem financiar? O recente bloqueio de recursos federais pelo governo Trump para instituições como Harvard e Columbia nos força a examinar uma contradição incômoda do sistema atual: defendemos a independência das instituições acadêmicas, mas esperamos que sejam financiadas pelos impostos de cidadãos que podem discordar profundamente das ideias promovidas nessas instituições. A razão por trás de tais bloqueios foi a atuação, ou a falta desta, das universidades durante os protestos pro-Hamas realizados por seus estudantes em 2023 e 2024. Harvard e Columbia são organizações privadas, mas os recursos federais recebidos compõem parte significativa de seus investimentos em pesquisas. Cerca de 68% das receitas de patrocínio (sponsored revenues) de Harvard dedicadas à pesquisa são provenientes de recursos federais americanos. No caso de Columbia, 20% da receita operacional é oriunda da mesma fonte. É evidente que os impactos no desenvolvimento de pesquisas serão brutais e talvez esse seja um dos casos onde o “remédio é pior do que a doença”. Os protestos que motivaram as sanções governamentais representam apenas uma pequena fração da comunidade universitária, distante das contribuições científicas e sociais que definem a reputação destas instituições. A Columbia University Irving Medical Center (CUIMC), braço de pesquisas médicas da organização, foi responsável por realizar o primeiro bem-sucedido transplante de coração em uma criança. A descoberta da Ressonância Magnética Nuclear, base para a tecnologia de imagem por ressonância, a qual rendeu um Prêmio Nobel a Isidor Isaac Rabi aconteceu dentro dos laboratórios da universidade. Desde 1901, a Columbia University conta com 87 laureados com o Prêmio Nobel entre seus ex-alunos, professores e pesquisadores. Cinco dos founding fathers passaram pela universidade. Todos esses departamentos e programas de excelência sofrerão com os cortes de financiamento públicos, levantando questões sobre a proporcionalidade da resposta governamental e se é justo que o trabalho científico seja prejudicado por eventos ocorridos principalmente no âmbito dos movimentos estudantis. O governo americano ancora-se em uma suposta violação do Title VI do Civil Rights Act de 1964, que expressamente proíbe a discriminação com base em raça, cor ou origem nacional em programas e atividades que recebam assistência financeira legal. Ao permitir a realização de protestos que intimidavam os alunos judeus, as instituições conscientemente falharam em evitar que o ato de discriminação acontecesse. De toda forma, o rito legal para o encerramento dos repasses de recursos às universidades demanda uma detalhada investigação com múltiplas audiências e um aviso prévio de trinta dias ao Congresso, o que não foi respeitado. As exigências da administração Trump para cessar os bloqueios são diversas, tais como: supervisão acadêmica do Departamento de estudos do Oriente Médio, Sul da Ásia e África, revisão das políticas de admissões, concessão de autoridade policial total aos oficiais de segurança do campus, punições severas aos manifestantes pró-Hamas, entre outras. Essas medidas não são necessariamente negativas, mas o precedente aberto definitivamente é. Governos vêm e vão. Em uma era de extremos, candidatos com posicionamentos antagonistas competem por popularidade e medidas como o nosso tema geram audiência, cortes para as redes sociais e popularidade com a base eleitoral. As mesmas ferramentas hoje usadas para combater o antissemitismo podem ser usadas amanhã para o oposto. A prerrogativa que permite a intervenção estatal é relativamente simples: as universidades são instituições privadas que recebem doações de empresas, indivíduos e governos. Quanto maior a dependência da organização em um agente só, maior o poder de barganha do doador, independentemente da sua natureza jurídica. As ações do governo Trump de nada diferem de um acionista ativista impondo sua visão estratégica por meio de sua influência em uma empresa. Evidentemente, esse conflito jamais aconteceria, ao menos por pressões governamentais, se toda a estrutura de sustentação financeira das instituições fosse de origem privada e pulverizada, isto é, não tendo um grande doador tomando as rédeas do futuro das organizações. Existe uma distinção fundamental no centro deste debate: a diferença entre liberdade acadêmica e liberdade intelectual. A liberdade acadêmica é associada com o direito inerente aos docentes de ensinar e pesquisar sem controle institucional, no entanto, esses profissionais estão sujeitos às diretrizes de suas universidades e estas possuem o direito legítimo de determinar o que deve ou não ser disseminado dentro de suas instituições. Já liberdade intelectual, conceito mais amplo, engloba o direito de pensar, expressar e comunicar ideias livre de coerção, essencial para o julgamento racional. Quando o governo compulsoriamente utiliza recursos de contribuintes para financiar universidades que promovem ideias que contradizem seus valores pessoais, as suas liberdades intelectuais estão sendo feridas, uma vez que tais recursos arrecadados sob forma de coerção poderiam voluntariamente ser utilizados para o financiamento de universidades e pesquisas alinhados aos valores de cada indivíduo. Não se trata de negar a liberdade acadêmica das universidades, mas de reconhecer que, em uma sociedade genuinamente liberal, a liberdade intelectual dos indivíduos não deveria ser subordinada a outros interesses institucionais. Seria coerente, então, um sistema que obriga cidadãos a financiar a produção e disseminação de ideias às quais se opõem fundamentalmente? Enquanto houver financiamento com recursos públicos, esse conflito entre liberdades permanecerá insolúvel. Nem o governo Trump, nem as universidades demonstram real interesse em resolver este impasse. O governo busca preservar sua influência cultural sobre instituições privadas, enquanto as universidades almejam manter os recursos federais sem qualquer interferência externa. Este cenário apresenta apenas dois desfechos possíveis: universidades sem acesso a verbas públicas ou instituições submetidas às exigências governamentais. Mesmo que as universidades cedam às atuais exigências, não há garantia de pacificação duradoura, novas imposições surgirão, minando ainda mais sua autonomia. Mais preocupante, administrações futuras com orientações ideológicas opostas poderão usar o mesmo precedente para impor exigências contraditórias, criando instabilidade grave para projetos de pesquisa de longo prazo e comprometendo o avanço científico da humanidade. Para a manutenção da liberdade acadêmica das universidades em harmonia com a liberdade intelectual dos contribuintes a solução encontrada é o desligamento gradual do financiamento público das universidades privadas, fornecendo tempo hábil para que elas busquem outras fontes de recursos para substituir as verbas públicas em seu orçamento.
A Constituição da Liberdade — Tom Palmer

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A Ciência da Política — Adriano Gianturco

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