IFL – SP

Os Construtores do Brasil Moderno

O que será que existe por trás destes mares, Pedro? Quem diria que a velha Terra de Vera Cruz se tornaria uma das maiores economias do mundo? Para quem lembra que fomos descobertos por homens da maior ordem militar, econômica e intelectual da época – a Ordem de Cristo -, não é surpresa que acabamos nos tornando maiores que nossos próprios conquistadores. Essa é a beleza da dicotomia presente na fundação do Brasil. Nossa Identidade, Nossas Cores Por vezes, nós, brasileiros, nos esquecemos das nossas raízes, da nossa cultura. E como dizia um filósofo, um homem que desconhece o seu passado, jamais conseguirá ter orgulho do seu presente. A famosa “síndrome de vira lata” desapareceria se resgatássemos os líderes que tiveram o orgulho de ter sangue brasileiro em suas veias. A miscigenação entre indígenas, europeus e africanos nos tornou um país raro, uma cultura acolhedora e diversa, raramente vista na história. Talvez, apenas o Império Romano tenha tido uma capacidade similar de absorção cultural como o Brasil, onde tantos costumes coexistem em harmonia. O que faz você se orgulhar de vestir a amarelinha? Muitos associam o amarelo ao ouro e o verde à vegetação, mas, na verdade, o verde representa a família Orleans de Bragança e o amarelo, a dinastia dos Habsburgos. Ambas eram as famílias mais poderosas da Europa, tamanha era a importância do Brasil no 7 de setembro de 1822, dia da nossa independência. Um Ateniense em Solos Brasileiro Neste contexto, surge um dos maiores estadistas brasileiros – José Bonifácio de Andrada e Silva. Filho de uma família aristocrática, estudou na Universidade de Coimbra. Ele presenciou de perto o caos da Revolução Francesa e chegou a lutar contra as tropas napoleônicas na invasão de Portugal. Quando D. João VI retornou a Portugal, deixando o Brasil nas mãos de D. Pedro I, Bonifácio foi o primeiro a reconhecer o poder do novo príncipe regente, pedindo que ele permanecesse no país. Ele temia que o Brasil se fragmentasse, como aconteceu com nossos vizinhos hispânicos. Bonifácio foi um dos líderes políticos na independência brasileira e escreveu 200 leis em 1 ano. Mesmo após ter criado oposição a D. Pedro I, o mesmo, na carta de sua morte, pediu para que Bonifácio assumisse como tutor de seu filho D. Pedro II, reconhecendo-o como o homem mais virtuoso do Brasil. Antes de morrer, disse o seguinte: “O brasileiro será o novo ateniense se não cair na tirania do Estado.” Infelizmente, caímos. O Imperador que Não Era Imperador No século XIX, tivemos o maior empreendedor que o Brasil já conheceu. Se hoje admiramos Steve Jobs ou Elon Musk, o Barão de Mauá foi ainda mais poderoso, mas poucos brasileiros conhecem sua biografia. Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, foi maior que o próprio império brasileiro. Criou a primeira indústria do Brasil, a primeira ferrovia, fundou o Banco do Brasil, trouxe luz para as cidades, criou comércios estrangeiros, foi abolicionista e intelectual. Mauá, filho de agricultores, começou cedo no Rio de Janeiro e, aos 14 anos, já tinha uma responsabilidade equivalente a um VP de finanças. Exposto aos ideais do livre mercado de Adam Smith, ele teve a sorte de encontrar um mentor escocês que o ensinou sobre negócios. Após uma viagem a Londres, Mauá trouxe inovações para o Brasil, usando mão de obra qualificada, oferecendo participação nos lucros e criando indústrias. Seu maior legado talvez não sejam suas empresas, mas sua mensagem: “Labor Improbus Omnia Vincit” – com esforço, tudo se conquista. Ciência e Inovação – Nós Temos Ah, mas o Brasil nunca formou nenhum grande cientista! Será mesmo? A viagem rápida de São Paulo até Londres? Agradeça a Santos Dumont, o pai da aviação. Que horas são? Dumont inventou o relógio de pulso. Feliz por tomar um banho quente? Agradeça a ele mais uma vez. Era Uma Vez um Bisavô Imigrante.. Todos nós já ouvimos histórias de um bisavô que veio como imigrante da Europa e com muito suor, sangue e lágrimas mudou de patamar deixando um legado que os bisnetos usufruem até hoje – Francesco Matarazzo foi um deles. Antes de embarcar para o Brasil, gastara todo o seu dinheiro na compra de banha de porco para trazer e comercializar no Brasil, no entanto, a sorte não estava ao seu lado. Logo ao desembarcar, toda a sua mercadoria afundou no mar e ele ficou literalmente sem um centavo no bolso em um país em que nem a sua língua falava. Pois bem, no final da vida morreu como o 5° homem mais rico do mundo. Tempos difíceis criam homens fortes — uma verdade metafísica incontestável. O Sonho Grande E o que falar sobre Jorge Paulo Lemann e seus sócios que construíram o mercado financeiro no Brasil – um dos mais desenvolvidos no mundo? No começo do século XXI, tiveram a coragem de comprar a Anheuser-Busch da Bélgica, formando a maior cervejaria do mundo. Algo quase impossível, mas é justamente neste termo — quase impossível — que se define a virtude da coragem. Coragem é quando nos propomos a fazer algo cujas chances são estatisticamente ínfimas e, mesmo assim, o fazemos. Isso me lembra da invasão de Alexandre o Grande ao Império Persa com 40 mil homens e suprimentos para apenas 30 dias, quando o império tinha mais de 300 mil combatentes. O mais lógico era o inverso acontecer, assim como seria lógico que a Anheuser-Busch comprasse a Ambev. Um empreendedor é do tamanho do seu sonho, e o Brasil tem a sorte de ter empreendedores cujos sonhos não foram grandes demais. Lideranças Femininas E, por último, nossas inspiradoras lideranças femininas: Princesa Isabel, que é a melhor imperatriz que nunca tivemos, que enfrentou grupos de poder para abolir o fim da escravidão – e assim o fez – mesmo sabendo que isso representaria o fim da família imperial. Maria Quitéria, que foi a 1°militar brasileira lutando na guerra da independência do Brasil. Gisele Bündchen, ícone global de beleza. Cristina Junqueira, fundadora do Nubank – a maior fintech B2C do mundo

O futuro da moeda em tempos de incerteza

As tensões geopolíticas recentes e o avanço acelerado das inovações digitais vêm desafiando não apenas a hegemonia do dólar, mas também a própria forma como o dinheiro circula pelo mundo. Um sistema centralizado em torno de moedas de reserva e arranjos tradicionais de pagamentos que parecia estável por décadas agora convive com alternativas decorrentes do momento de profunda transformação que passa pelos criptoativos, blockchain e moedas digitais de bancos centrais, além de novos arranjos que buscam rapidez, menor custo e maior autonomia. Esse cenário dialoga diretamente com as reflexões que Gustavo Franco externou no ensaio O futuro do dinheiro, em 2020, publicado e disponível no Instituto de Estudo de Política Econômica/Casa das Garças. No referido ensaio, Franco relembra que a moeda é, antes de tudo, uma convenção social. Ou seja, seu valor não está na substância, mas na confiança (daí vem a fidúcia) que a sociedade deposita. Essa confiança atravessou diferentes fases históricas, passando pela da moeda-mercadoria e moeda fiduciária, e hoje se projeta sobre novas tecnologias e experimentos financeiros. Franco observa que vivemos um momento de pluralidade monetária, em que distintos arranjos coexistem e disputam legitimidade. Essa multiplicidade não é inédita, mas ganha novo alcance com a digitalização e com o papel dos Estados em decidir o que regular, tolerar ou coibir. O futuro, diz o autor, permanece em aberto: prematuro para lições definitivas, mas repleto de promessas e possibilidades. Nesse contexto de transformação, o Pix surgiu como resposta brasileira às demandas por rapidez, baixo custo e inclusão nos pagamentos. Criado como um arranjo de pagamentos instantâneos, ele sintetizou as tensões descritas por Franco, traduzindo em prática a convergência entre tecnologia, novos hábitos de consumo e o papel das instituições em garantir confiança no sistema monetário. O Pix ilustra também uma característica particular do arranjo brasileiro, que foi concebido e implantado pelo Banco Central do Brasil, que atua ao mesmo tempo como regulador e empreendedor, ao que Franco destaca que “o regulador leva sua tarefa tão a sério, que toma para si a tarefa de empreender, ou de fazer acontecer o que o setor privado provavelmente faria, mas com enormes desafios para o mundo regulatório”. Essa sobreposição de funções tem suscitado debates sobre o alcance da ação estatal em relação a soluções privadas, ao mesmo tempo em que coloca o Banco Central do Brasil no centro das discussões sobre inovação e regulação monetária. O tema, inclusive, é objeto de discussão recente levantada pelos Estados Unidos. Em linha com as reflexões de Franco, o economista Paul Krugman chegou a refletir, em julho do corrente ano, se “Has Brazil Invented the Future of Money?”, destacando o Pix e sua adoção massiva, sua eficiência e seu baixo custo como indicadores de inovação monetária global. Gustavo Franco, que é ex-presidente do Banco Central do Brasil e um dos principais responsáveis pelo Plano Real, que reestabeleceu a estabilidade da moeda no Brasil, conclui seu ensaio refletindo que é cedo para prognósticos, mas destaca que o futuro do dinheiro será mais complexo do que se imaginava, marcado por tensões entre inovação, regulação e confiança. Em meio à incerteza, a história se repete: o dinheiro continua a se reinventar. Gustavo Franco é uma das vozes mais relevantes no debate econômico brasileiro e estará presente no Fórum Caminhos da Liberdade, que ocorrerá no próximo dia 11 de setembro, no Teatro Vibra, em São Paulo, para conversar sobre os rumos que o Brasil precisa adotar a fim de assegurar estabilidade, crescimento e liberdade de mercado. Victor Chang Almeida Carvalho – Advogado, com atuação nos mercados financeiros e de capitais. Associado ao Instituto de Formação de Líderes de São Paulo (IFL-SP).  

As sanções norte-americanas ao Ministro Moraes e aparente tentativa de resposta (calculada?) do Estado brasileiro – Entre soberania, autoproteção e Poder

A recentíssima decisão de 18/08/2025 proferida, pelo Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 1.178, declarando que leis e atos estrangeiros não produzem efeitos automáticos no Brasil, porque sujeitas à chancela do Poder Judiciário, parece marcar mais do que um princípio de resposta jurídica às recentes sanções dos Estados Unidos ao Ministro Moraes sob o Magnitsky Act. Revela uma estratégia institucional deliberada para blindar o Supremo Tribunal Federal e projetar uma defesa de Estado brasileiro com recurso retórico à soberania nacional. Longe de ser apenas reação ao endurecimento político externo, a movimentação que agora se cristaliza já vinha sendo pavimentada com precisão: projetos de lei (como o dito ‘PL da Soberania Financeira’, do PSOL), pedidos cautelares junto ao Supremo (como o do deputado Lindbergh Farias, do PT) etc., como preparação de um terreno processual que possibilite ao STF decidir “em bloco”, colegiadamente, no Plenário – e, principalmente, com eficácia vinculante para todos os órgãos do Estado brasileiro e todas as pessoas, físicas ou jurídicas, sob a sua jurisdição –, que tais sanções violam não apenas a Constituição, mas os próprios fundamentos da ordem internacional respeitável. Nesse cenário, a figura do Ministro Moraes deixa de ser a de um indivíduo sancionado. Torna-se símbolo da arquitetura institucional brasileira diante da pressão externa. E é esse deslocamento, do pessoal para o estatal, que torna a controvérsia particularmente delicada. O risco, aqui, não é apenas de constrangimento diplomático, mas da conversão de um embate jurídico-político em litígio internacional, em cenário mais extremo, inclusive, com a eventual invocação, por qualquer dos lados, do direito de proteção diplomática – o mecanismo do Direito Internacional que permite a um Estado assumir para si a defesa dos interesses dos seus nacionais como expressão da própria soberania. Tanto a Constituição brasileira quanto a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro oferecem, ao Supremo e ao Executivo, fundamentos para reagir às recentes movimentações dos EUA sob o Magnitsky Act: a soberania nacional com fundamento constitucional do Estado (art. 1º), a independência nacional como princípio constitucional das relações exteriores (art. 4º); e o artigo 17 da LINDB, que nega eficácia a atos estrangeiros que contrariem a ordem pública ou a soberania. Mesmo que cientes de que a extraterritorialidade de lei estrangeira não equivale, por si só, à violação da soberania nacional – e estão cientes disso –, esses fundamentos jurídicos comportam utilização retórica deliberada, para dar um verniz (ou aparência ilusória) de defesa soberania da institucionalidade àquilo que, na verdade, trata-se, ao fim e ao cabo, de defesa do indefensável (os atos antijurídicos do Ministro Moraes, sob a Relatoria do Inquérito das Fake News, sobretudo). O Tribunal – e o Executivo, com ele alinhado – sabe que não reagir às sanções seria abrir o flanco para um estado de vulnerabilidade que permite à própria Corte ataques futuros, o que, por autopreservação, não podem admitir. Em resumo, parece estar em curso, juridicamente, a marcha (insensata) para institucionalizar reação. Se isso conterá ou escalará a tensão, os próximos desdobramentos dirão, podendo, inclusive surpreender, para o bem ou para o mal, o que é da natureza da Política. O que parece claro, porém, é que estamos diante de um caso em que a retórica da liberdade e a prática da blindagem se entrelaçam de forma tão estratégica quanto calculada. A reconstrução institucional do país, em um cenário em que soberania, liberdade, responsabilidade e Poder se reposicionam, exige mais do que narrativas apressadas, improvisadas, inconsistentes. Exige debate sério, plural e consequente. É exatamente esse o propósito do Fórum Caminhos da Liberdade 2025, promovido pelo IFL-SP – Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, no próximo dia 11/09. Sob o tema “Nova Rota, novo Brasil”, ele propõe uma travessia intelectual e cívica para quem quer compreender o presente e influenciar o futuro brasileiros, em uma hora que se mostra cada vez mais crucial. Encontre mais informações no site forumsp.org e participe. Líbero Rabaldo – Advogado e Associado ao IFL-SP – Instituto de Formação de Líderes de São Paulo

Menos barreiras, mais futuro: o debate que o país precisa ouvir

O Brasil carrega um potencial imenso, mas frequentemente vê esse potencial travado por obstáculos criados dentro de casa. O excesso de regras, a insegurança regulatória e a intervenção estatal em áreas que deveriam ser conduzidas pela sociedade e pelo mercado, minam a confiança de quem quer investir e produzir. Em vez de um ambiente que premie a eficiência e a inovação, ainda convivemos com uma rede de burocracias que consome tempo, energia e recursos, desestimulando empreendedores e limitando o alcance da economia. As consequências dessas restrições são visíveis. Pequenos e médios empresários enfrentam dificuldades desproporcionais para manter suas atividades; investidores se afastam por falta de previsibilidade; trabalhadores veem oportunidades se perderem pelo caminho. O Brasil, que poderia estar entre os países mais dinâmicos do mundo, segue abaixo de seu potencial, justamente porque a liberdade para empreender, competir e inovar é constantemente testada. Esse quadro fica ainda mais desafiador quando somado a questões políticas e sociais. O debate público, essencial para o funcionamento saudável da democracia, enfrenta pressões e limites que preocupam. Quando a divergência de ideias passa a ser tratada como ameaça, perde-se a chance de construir soluções conjuntas. E, sem espaço para o contraditório, até mesmo a economia sofre — porque o livre mercado não existe sem liberdade de expressão, sem pluralidade de visões e sem instituições fortes que garantam a liberdade e a autonomia. É por isso que eventos que colocam esses temas no centro da discussão se tornam tão relevantes. No próximo 11 de setembro, acontece o 12º Fórum Caminhos da Liberdade, que reunirá especialistas, líderes e empreendedores para debater os caminhos que podem destravar o Brasil. O encontro trará painéis sobre economia, política, segurança pública, liderança, empreendedorismo e liberdade de expressão, sempre conectados com as pautas mais atuais e com os desafios do momento. O Fórum será um espaço único para refletir sobre os rumos do Brasil em um momento de incertezas. Reunindo grandes nomes e vozes influentes, o encontro promete provocar ideias e inspirar novas soluções para os desafios do presente e do futuro. Mais do que um evento, será uma oportunidade de enxergar o país sob novas perspectivas. Um ambiente de diálogo, onde líderes, empreendedores e pensadores se encontram para repensar caminhos e mostrar que, mesmo diante de restrições, sempre há espaço para a criatividade e a inovação. No dia 11 de setembro, o Brasil terá diante de si um palco de ideias que podem transformar o futuro. O Fórum Caminhos da Liberdade é um convite para quem acredita que prosperidade e confiança só se constroem quando a liberdade encontra espaço para florescer. Em um tempo marcado por restrições e incertezas, o evento chega para lembrar que a liberdade é sempre o motor do progresso!

O novo mundo que Trump e Putin planejam construir

As cenas do bombardeiro B2 passando sobre Donald Trump e Vladimir Putin rodaram o mundo como um dos pontos altos do encontro que reuniu os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia no Alaska nos últimos dias. Em geopolítica, tudo é simbolismo, e no Alaska não foi diferente. Do moletom da antiga União Soviética utilizado pelo chanceler russo Serguei Lavrov ao aperto de mão mais do que apertado do presidente Trump, passando pela própria escolha do local do encontro: o Alaska, território que a Rússia vendeu aos Estados Unidos em 1867. No cardápio do encontro, o prato principal foi a redefinição das regras do jogo global. Mais do que discutir sanções ou a guerra na Ucrânia, Trump e Putin parecem buscar um novo arranjo de poder, uma tentativa de reorganizar as esferas de influência num momento em que a ordem que conhecemos parece estar ruindo – assim como ruiu o muro de Berlin em 1989, dando origem ao mundo como conhecemos hoje. O pano de fundo dessa aproximação é claro: a ascensão da China, uma União Europeia convalescente e cada vez mais burocrática, os BRICs se rebelando contra o dólar e se aliando pouco a pouco com os chineses. Tanto Washington quanto Moscou sabem que o protagonismo chinês vem alterando o equilíbrio geopolítico estabelecido nas últimas décadas. Ao se encontrarem em solo gelado, Trump e Putin enviam uma mensagem ao mundo: diante da expansão dos tentáculos políticos de Pequim, um eixo pragmático entre EUA e Rússia parece mais tão improvável quanto pareceria nos anos 90, quando a antiga União Soviética se esfacelou em pequenas repúblicas e a pax americana prevaleceu. A história mostra que esse tipo de movimento não é incomum: nos anos 1970, Henry Kissinger, o secretário de estado americano pai da “realpolitik” – a política conduzida de forma pragmática, pensando nos objetivos finais e menos na ideologia –  foi responsável por costurar os laços entre Washington e Pequim, alterando para sempre a lógica da Guerra Fria. O pano de fundo era a ruptura entre China e União Soviética na década anterior, que abriu espaço para que os Estados Unidos explorassem essa fissura. Kissinger percebeu a oportunidade de se aproximar de Pequim para enfraquecer Moscou, preparando a histórica visita de Richard Nixon em 1972 e o Comunicado de Xangai, que redesenhou o tabuleiro global. Hoje, meio século depois, estamos vendo uma movimentação das placas tectônicas da geopolítica mundial que podem formar um novo “Himalaia”, digno de redefinir a ordem global como conhecemos até aqui. O aperto de mão entre Trump e Putin no Alaska pode não ter o mesmo impacto imediato do encontro de Nixon com Mao em Xangai, mas marca um gesto que vai repercutir na estratégia e nos próximos passos de Pequim, Bruxelas e do Oriente Médio. Não por acaso, nesta semana também ocorreu uma reunião de emergência entre os ministros de relações exteriores dos países da União Europeia. Para compreender os significados por trás dessas cenas, e o que elas dizem sobre o futuro do Brasil, é preciso ouvir quem estuda esses movimentos de perto. No próximo dia 11 de setembro, no Teatro Vibra, em São Paulo, o Fórum Caminhos da Liberdade trará ao público a oportunidade rara de acompanhar Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco dos BRICS e um dos maiores especialistas do país em geopolítica. Normalmente, debates dessa envergadura ficam restritos a cúpulas de governo ou conselhos de multinacionais. O Fórum, no entanto, abre esse acesso a todos, permitindo que o público compreenda de forma direta e qualificada como o novo mundo que Trump e Putin querem construir pode afetar cada um de nós.

A Eterna Espera: Brasil e Seu Futuro Prometido

Para tirar o Brasil do limbo entre o futuro prometido e o presente frustrante, é essencial analisar os fatores históricos, econômicos e sociais e aplicar princípios liberais para promover o desenvolvimento sustentável e a prosperidade. O Brasil é frequentemente descrito como o “país do futuro”, porém essa expressão tornou-se ao longo dos últimos anos um símbolo de frustração e promessa não cumprida. O que era um horizonte de possibilidades tornou-se uma miragem distante.   Para transformar esse futuro em realidade, é essencial compreender e aplicar os princípios econômicos que promovem o desenvolvimento sustentável e a prosperidade. Conhecido como o último cavaleiro do liberalismo, Ludwig von Mises, em seu livro “As Seis Lições”, oferece uma visão clara de como o liberalismo econômico pode ser a chave para essa transformação.   O Brasil se encontra em um contexto geopolítico favorável. Enquanto muitos países de primeiro mundo enfrentam crises dramáticas, como segurança alimentar, ameaças  cibernéticas e conflitos bélicos, nós nos destacamos pela abundância de recursos naturais, energia limpa e capacidade agrícola robusta.  Para aproveitar esse momento favorável, precisamos atrair investimento estrangeiro através de reformas que reduzam a burocracia e garantam segurança jurídica. Precisamos fugir das armadilhas do intervencionismo e adotar princípios liberais, promovendo um mercado livre e competitivo.   A Inutilidade do Intervencionismo e os Benefícios do Capitalismo: Lições de Mises e Marx   Quando olhamos para o contexto histórico, Mises nos esclarece sobre as práticas adotadas desde o Império Romano até a metade do século XX, período em que seu livro foi escrito.    Ludwig dizia: ” As nações só têm uma maneira de alcançar a prosperidade: por meio do aumento de capital, com decorrente aumento da produtividade marginal e o crescimento dos salários reais.”   Identificamos o caminho para a prosperidade e antes de mais nada,  é importante analisar por que o socialismo e o intervencionismo não funcionam. Embora existam muitos motivos, este artigo destaca apenas um:  a ausência do livre mercado.    A função principal de um governo é proteger os direitos individuais, manter a ordem e garantir segurança. Isso inclui a defesa contra agressões externas e a proteção dos cidadãos contra crimes e violência.    O intervencionismo significa que o governo não se restringe a essas atividades principais. Desejoso de fazer mais, passa a interferir nos fenômenos de mercado, preços, salários, taxas de juros e lucros.    Menos extremo que o socialismo, essas intervenções criam distorções no mercado, que prejudicam a eficiência econômica e a alocação ineficiente de recursos. Deveria ser óbvio, mas não é.    O ciclo desastroso do controle de preços funciona como um efeito cascata, ilustramos o congelamento do preço do leite. Quando um governo impõe um preço máximo ao leite para torná-lo mais acessível, isso resulta em um desincentivo para os produtores, pois o preço pode não cobrir os custos de produção. Esse desincentivo leva a uma redução na oferta de leite, causando escassez.   A escassez de leite, por sua vez, pode levar a um efeito cascata, onde a falta de leite força o governo a implementar controles de preços em outros produtos relacionados, como alimentos derivados do leite e rações para vacas. Essa intervenção contínua provoca distorções adicionais no mercado, resultando em uma cadeia de escassez e problemas econômicos mais amplos.    Um exemplo é a crise enfrentada por nossa vizinha Venezuela, onde o controle de preços resultou em desabastecimento generalizado e severas dificuldades econômicas.   Por outro lado, ao analisarmos a história mundial, fica claro que Marx estava errado. Em todos os países capitalistas, as condições de vida da população melhoraram significativamente. O capitalismo tem sido um motor de progresso e bem-estar, elevando o padrão de vida onde foi implementado.   Capitalismo e Investimento Estrangeiro: Motores de Crescimento   O livro “As seis Lições” de Ludwig Von Mises, oferece uma visão detalhada sobre esses dois elementos e como eles são interdependentes e complementares para um desenvolvimento econômico.    Para aqueles que ainda tem dúvida, destaco os 4 princípios fundamentais do capitalismo e como esses princípios podem ser aplicados para deixarmos de ser o país do futuro e ser o país do presente.   Livre Mercado e Competição: ao permitir que os preços se ajustem livremente, refletimos melhor as preferências e necessidades dos consumidores. A competição promove a eficiência e a inovação, resultando em produtos de melhor qualidade a preços mais baixos;   Propriedade Privada e Segurança jurídica: A propriedade privada assegura que os recursos sejam utilizados de forma responsável e produtiva, já que os proprietários têm interesse direto em maximizar seu valor. A garantia de que os direitos de propriedade serão respeitados e protegidos contra expropriações arbitrárias ou ilegais.   Estabilidade legal e Regulatória: Reduzir a burocracia e as barreiras à entrada de novos negócios, incentivando a competição e a inovação. Manter um conjunto de leis que não sejam sujeitas a mudanças frequentes e arbitrárias, proporcionando previsibilidade aos investidores.   Abertura e transparência ao Comércio Internacional: Facilitar o comércio internacional para integrar a economia brasileira à economia global e ampliar os mercados para produtos locais.      A defesa desses princípios, garantem um ambiente propício para o Brasil atrair investimentos estrangeiros. Podemos aproveitar não só o contexto da geopolítica mundial de conflitos bélicos, mas também uma mudança de investimento global pós pandemia.    Como ressalta o ex-ministro da Economia Paulo Guedes em seus discursos, o mundo está convergindo para os conceitos de “nearshore” e “friendly shore”. “Nearshore” envolve mover operações para países próximos, reduzindo custos e melhorando a eficiência logística. “Friendly shore” foca em investir em países com um ambiente de negócios amigável, segurança jurídica, estabilidade política e respeito à propriedade.   Ao adotar os princípios de Mises, o Brasil pode se tornar um destino atraente para esses investimentos, oferecendo estabilidade legal, proteção da propriedade privada e transparência regulatória, essenciais para a confiança dos investidores e o desenvolvimento econômico.   A oportunidade está à nossa frente mais uma vez, o investimento externo traz recursos adicionais que podem ser utilizados para expandir e modernizar a infraestrutura e os setores produtivos.    Atrair

Quando Tudo é Violência, a Violência se Torna Banal

Segundo uma pesquisa da Workplace Intelligence em parceria com a INTOO (2023), 47% dos profissionais da geração Z afirmam receber melhores conselhos de carreira do ChatGPT do que de seus líderes diretos. À primeira vista, o dado pode parecer um traço geracional. Mas, ao aprofundar os resultados, percebe-se que a questão é mais estrutural do que etária. Mais da metade dos profissionais entrevistados, de todas as faixas, afirmam sentir-se sozinhos em relação ao próprio desenvolvimento de carreira. E apenas um em cada três sente que seu líder sabe, de fato, orientá-lo. O dado é chocante à primeira vista, mas o mais incômodo é o que ele revela: a lacuna de escuta e conexão que se instalou entre líderes e liderados. Estamos atravessando a maior crise de saúde mental da história. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, é o país mais ansioso do mundo. Em 2024 teve o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos, foram 472 mil licenças concedidas, um aumento de 67% em relação à 2023, segundo dados do Ministério de Previdência Social. Tudo isso acontece enquanto vivemos uma digitalização sem precedentes: processos, interações e até emoções vêm sendo mediados por algoritmos, telas e plataformas. Tudo ficou mais rápido, mais eficiente, com mais opções à disposição e, paradoxalmente, mais solitário. A produtividade cresceu, mas o senso de propósito, pertencimento e vínculo humano parece ter se diluído no caminho. Na dicotomia entre a hiperconexão digital e a desconexão humana, será que estamos preparados para liderar na era da digitalização de tudo? Parece que não. Mas ela já começou. Participei recentemente de um evento com dezenas de lideranças de RH e a mensagem era uníssona: precisamos repensar a gestão. Uma das painelistas apresentou uma previsão de que as novas gerações deverão ter, em média, até 40 empregos ao longo da vida. De acordo com o relatório Work Change Report do LinkedIn, profissionais que ingressam no mercado de trabalho atualmente estão propensos a ter o dobro de empregos ao longo de suas carreiras em comparação com 15 anos atrás. Permanecer dois anos numa empresa já será uma conquista. O foco, portanto, deixou de ser reter. O desafio agora é gerar sentido enquanto esse vínculo durar. Essa transformação tem tudo a ver com aprendizado. Segundo o painel “Skill Flux: The Death of Lifelong Expertise”, apresentado no último SXSW, a durabilidade média de uma habilidade caiu de 30 para 5 anos. E pode diminuir ainda mais até o fim da década. No Brasil, a pesquisadora Michele Schneider aprofunda esse tema no livro O Profissional do Futuro, mostrando como a obsolescência das competências exige uma ruptura nos modelos tradicionais de desenvolvimento: menos longas jornadas, mais trilhas práticas e sob demanda. Menos controle, mais cultura de aprendizagem ativa. Não é mais uma questão de saber tudo, é preciso aprender o tempo todo. O novo papel da liderança é, acima de tudo, emocional. Criar espaços seguros onde seja possível admitir dúvidas, vulnerabilidades e medos. Humildade, empatia e escuta se tornam competências tão estratégicas quanto planejamento e execução. Como defende Michele Schneider, a liderança do futuro se move entre coragem e cuidado, entre performance e presença. A palavra “humildade” vem de humus, o solo fértil. É daí que deve brotar a liderança do futuro: da consciência de que estamos todos aprendendo, todos sob o mesmo sol. Não há mais espaço para certezas absolutas nem para gurus de ocasião. O que há é a disposição de ser real. Presença, em tempos digitais, é mais do que estar online. É reconhecer, ouvir, ser acessível. Num contexto de trabalho híbrido, isso se torna ainda mais urgente. Uma pesquisa da Cigna Corporation, com mais de 10 mil trabalhadores de oito países, revelou que 61% dos profissionais se sentem solitários no trabalho, o que compromete engajamento, bem-estar e saúde mental. Estamos em uma era de mudança constante. A cada novo ciclo, mais curto que o anterior, habilidades se tornam obsoletas e outras nascem. O profissional que prospera é aquele que cultiva o mesmo espírito do aprendiz de uma criança: capaz de andar, tropeçar, levantar-se e seguir, quantas vezes forem necessárias. No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “como a IA vai mudar o trabalho?”, mas sim: por que tantos preferem ouvir a IA a seus próprios líderes? E o que isso revela sobre os espaços que deixamos vagos? A resposta não está em competir com a máquina, mas em ocupar plenamente o que só o humano pode oferecer: o vínculo, o sentido, a presença que transforma um dado em direção e uma dúvida em confiança. A IA pode otimizar tarefas. Pode até aconselhar com base em padrões. Mas ela não reconhece silêncios. Não percebe hesitações no olhar. Não sabe o que você não disse. Liderar, nesse novo tempo, é assumir esse lugar sutil, e poderoso, de estar onde os algoritmos não alcançam. Não é ser insubstituível por superioridade, mas por profundidade. Porque, ao contrário do que se teme, o futuro talvez não nos peça para sermos mais rápidos que as máquinas, mas mais humanos do que nunca. Por Maria Cerchi

Quando a IA escuta mais que o chefe: o que isso diz sobre nós?

Segundo uma pesquisa da Workplace Intelligence em parceria com a INTOO (2023), 47% dos profissionais da geração Z afirmam receber melhores conselhos de carreira do ChatGPT do que de seus líderes diretos. À primeira vista, o dado pode parecer um traço geracional. Mas, ao aprofundar os resultados, percebe-se que a questão é mais estrutural do que etária. Mais da metade dos profissionais entrevistados, de todas as faixas, afirmam sentir-se sozinhos em relação ao próprio desenvolvimento de carreira. E apenas um em cada três sente que seu líder sabe, de fato, orientá-lo. O dado é chocante à primeira vista, mas o mais incômodo é o que ele revela: a lacuna de escuta e conexão que se instalou entre líderes e liderados. Estamos atravessando a maior crise de saúde mental da história. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, é o país mais ansioso do mundo. Em 2024 teve o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos, foram 472 mil licenças concedidas, um aumento de 67% em relação à 2023, segundo dados do Ministério de Previdência Social. Tudo isso acontece enquanto vivemos uma digitalização sem precedentes: processos, interações e até emoções vêm sendo mediados por algoritmos, telas e plataformas. Tudo ficou mais rápido, mais eficiente, com mais opções à disposição e, paradoxalmente, mais solitário. A produtividade cresceu, mas o senso de propósito, pertencimento e vínculo humano parece ter se diluído no caminho. Na dicotomia entre a hiperconexão digital e a desconexão humana, será que estamos preparados para liderar na era da digitalização de tudo? Parece que não. Mas ela já começou. Participei recentemente de um evento com dezenas de lideranças de RH e a mensagem era uníssona: precisamos repensar a gestão. Uma das painelistas apresentou uma previsão de que as novas gerações deverão ter, em média, até 40 empregos ao longo da vida. De acordo com o relatório Work Change Report do LinkedIn, profissionais que ingressam no mercado de trabalho atualmente estão propensos a ter o dobro de empregos ao longo de suas carreiras em comparação com 15 anos atrás. Permanecer dois anos numa empresa já será uma conquista. O foco, portanto, deixou de ser reter. O desafio agora é gerar sentido enquanto esse vínculo durar. Essa transformação tem tudo a ver com aprendizado. Segundo o painel “Skill Flux: The Death of Lifelong Expertise”, apresentado no último SXSW, a durabilidade média de uma habilidade caiu de 30 para 5 anos. E pode diminuir ainda mais até o fim da década. No Brasil, a pesquisadora Michele Schneider aprofunda esse tema no livro O Profissional do Futuro, mostrando como a obsolescência das competências exige uma ruptura nos modelos tradicionais de desenvolvimento: menos longas jornadas, mais trilhas práticas e sob demanda. Menos controle, mais cultura de aprendizagem ativa. Não é mais uma questão de saber tudo, é preciso aprender o tempo todo. O novo papel da liderança é, acima de tudo, emocional. Criar espaços seguros onde seja possível admitir dúvidas, vulnerabilidades e medos. Humildade, empatia e escuta se tornam competências tão estratégicas quanto planejamento e execução. Como defende Michele Schneider, a liderança do futuro se move entre coragem e cuidado, entre performance e presença. A palavra “humildade” vem de humus, o solo fértil. É daí que deve brotar a liderança do futuro: da consciência de que estamos todos aprendendo, todos sob o mesmo sol. Não há mais espaço para certezas absolutas nem para gurus de ocasião. O que há é a disposição de ser real. Presença, em tempos digitais, é mais do que estar online. É reconhecer, ouvir, ser acessível. Num contexto de trabalho híbrido, isso se torna ainda mais urgente. Uma pesquisa da Cigna Corporation, com mais de 10 mil trabalhadores de oito países, revelou que 61% dos profissionais se sentem solitários no trabalho, o que compromete engajamento, bem-estar e saúde mental. Estamos em uma era de mudança constante. A cada novo ciclo, mais curto que o anterior, habilidades se tornam obsoletas e outras nascem. O profissional que prospera é aquele que cultiva o mesmo espírito do aprendiz de uma criança: capaz de andar, tropeçar, levantar-se e seguir, quantas vezes forem necessárias. No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “como a IA vai mudar o trabalho?”, mas sim: por que tantos preferem ouvir a IA a seus próprios líderes? E o que isso revela sobre os espaços que deixamos vagos? A resposta não está em competir com a máquina, mas em ocupar plenamente o que só o humano pode oferecer: o vínculo, o sentido, a presença que transforma um dado em direção e uma dúvida em confiança. A IA pode otimizar tarefas. Pode até aconselhar com base em padrões. Mas ela não reconhece silêncios. Não percebe hesitações no olhar. Não sabe o que você não disse. Liderar, nesse novo tempo, é assumir esse lugar sutil, e poderoso, de estar onde os algoritmos não alcançam. Não é ser insubstituível por superioridade, mas por profundidade. Porque, ao contrário do que se teme, o futuro talvez não nos peça para sermos mais rápidos que as máquinas, mas mais humanos do que nunca. Por Maria Cerchi

Comentário a respeito de “Sobre a Liberdade”, de John Stuart Mill

“Sobre a Liberdade”, também comumente traduzido como “Ensaio sobre a Liberdade” (do original, no Inglês, “On Liberty”), trata-se de texto clássico, cuja temática situa-se entre a Ciência Política e a Filosofia, de autoria de John Stuart Mill (1806 – 1873), nome que figura entre os mais expressivos do pensamento britânico – nos campos da Economia, da Filosofia e da Lógica – do Século XIX, e que comumente se refere como uma das vozes mais influentes e definitivas do Liberalismo dito clássico. A obra pode classificar-se, no sentido estrito do termo, em Literatura e Crítica, como ensaio (o próprio Stuart Mill assim refere, no prefácio da obra), seja pela sua extensão diminuta, inferior a cem laudas, seja pelo seu formato de texto livre, sem maior rigor metodológico, aliás, ideal à exposição e ao desenvolvimento do conteúdo teórico e filosófico sobre o qual versa. No entanto, a sua dimensão enxuta não denota menor significância como reflexão: tendo sido publicada em 1859, “Sobre a Liberdade” rapidamente consagrou-se como texto de referência e, de lá para cá, galgou o patamar – que permanece – de obra seminal. Nas páginas de “Sobre a Liberdade”, Stuart Mill põe em perspectiva e sob problematização, de forma sem precedentes na tradição ocidental de pensamento em matéria de Política e Teoria do Estado (e mesmo em Direito), a questão do ajuste, com motricidade fina, entre a independência do indivíduo e a o controle da sociedade. Embora os temas da liberdade e da autoridade, logicamente, sejam clássicos na acepção estrita do termo – já estão em Sócrates e em Platão, sobretudo, em “A República” –, é na obra de Stuart Mill que tem lugar, pela primeira vez, tentativa de equacionamento, com concretude e com tecnicidade, entre autoridade e individualidade (mesmo em obras basilares do Iluminismo, como o “Segundo Tratado sobre o Governo”, de Locke, dissecação dessa natureza não havia tomado forma). Nesses moldes, subjacente à concepção de “Sobre a Liberdade”, plausivelmente, o intelecto maduro em Política e em Lógica que, à altura da sua elaboração, Stuart Mill já possui, haja vista a publicação prévia de Sistema de Lógica (1843) e de Princípios de Economia Política (1848). Como pedra de toque para o dito equacionamento entre liberdade e autoridade – ou, em outras palavras, para operar como batuta na interação entre o sujeito e a sociedade –, Stuart Mill assenta e desenvolve teoricamente o assim chamado princípio do dano. Em suma, exsurge legítima a intervenção da sociedade sobre os direitos de liberdade do indivíduo sempre que as suas ações, efetivas ou em potencial, possam causar dano a outrem; a contrario sensu, se configurará espaço de liberdade irrestrita para o indivíduo – isto é, no bojo do qual não se afigura legítima qualquer intervenção da sociedade – com relação às ações cujos resultados digam respeito exclusivamente a ele. Essa constitui premissa maior, estabelecida por Stuart Mill, assim, como regra, e que, por isso mesmo, comporta exceções, as quais, no desenrolar do ensaio, o autor enumera e disseca, ao longo dos capítulos em que se divide, após a Introdução, o texto de “Sobre a Liberdade”: II – Sobre a liberdade de pensamento e discussão; III – Sobre a individualidade como um dos elementos do bem-estar; IV – Sobre os limites da autoridade da sociedade sobre o indivíduo; e V – Aplicações. É notável, com efeito, a qualidade de elaboração e de desenvolvimento de raciocínio e o rigor lógico de Mill, no curso da obra, ao decompor exemplos e problematizações excepcionais do princípio do dano – de resto, com texto estilisticamente acessível, fluido, sem maior número de digressões, apostos ou ordens indiretas. Assim, são bastante interessantes e, de novo, com expressivo quilate de rigor lógico-argumentativo, v.g., as considerações de Mill sobre liberdade de expressão – em que exsurge pertinente, inclusive, a propagação de opinião ou ideia falsa, porque, explica ele, a sua refutação qualifica o debate. Todavia, na visão particular deste signatário, é ao discorrer sobre a liberdade social (e política) que se leem os méritos intelectuais de melhor outorga em “Sobre a Liberdade”. Especial destaque, no ponto, para a categorização de distintas formas de tirania, inserida, aqui, a tirania da maioria, excerto em que há evidente intertextualidade com Tocqueville e a sua “Democracia na América”.Na verdade, de todas as problematizações, exercícios teóricos de hipotetização etc. com os quais Mill trabalha – e não apenas no que se refere à liberdade social e política –, pelo menos um denominador comum emerge: a correlação umbilical entre liberdade e cidadania. Concebida Por Mill como limitação para os poderes do Estado, a liberdade constitui-se como estatuto, por um lado, de salvaguarda de direitos fundamentais ditos de primeira dimensão, e, por outro lado, de estruturação representativa do exercício do poder político. Aliás, ao conceber correlação íntima entre a liberdade, por definição, e o estatuto político-jurídico da cidadania, o teor de “Sobre a Liberdade” faz lembrar as reflexões (também oitocentistas, tanto na data quanto na sua conformação ideológica) de Benjamin Constant, no seu célebre “Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos”. Ademais, comentário intelectualmente honesto a respeito de “Sobre a Liberdade” não pode deixar de mencionar que muito do que se lê nas suas páginas, hoje, já um quarto de Século XXI, parece óbvio ou banal. É verdade. O melhor exemplo, talvez, a ideia de que o indivíduo é soberano sobre o próprio corpo e a própria mente. Isso não significa, no entanto, que “Sobre a Liberdade” tenha envelhecido – mesmo porque os clássicos não envelhecem. Assim nos parece, hoje, isto sim, porque muito do ideário que Stuart Mill advogava tornou-se, desde o seu tempo, ‘standards’ consolidados (neste trecho do comentário, aliás, cabe honrá-lo relembrando a sua defesa precursora da extensão do direito de voto às mulheres). Portanto, a aparente obviedade de muito do que está dito em “Sobre a Liberdade”, aos olhos de um contemporâneo, evidencia, precisamente, o tanto de arrojado que, ao tempo da sua publicação, havia nas ideias que a obra traz. Por exemplo, em meados do Século XIX, a própria noção de intimidade

Dinheiro público, ideias privadas: O dilema das universidades sob Trump

Liberdade acadêmica é um luxo que os contribuintes devem financiar? O recente bloqueio de recursos federais pelo governo Trump para instituições como Harvard e Columbia nos força a examinar uma contradição incômoda do sistema atual: defendemos a independência das instituições acadêmicas, mas esperamos que sejam financiadas pelos impostos de cidadãos que podem discordar profundamente das ideias promovidas nessas instituições. A razão por trás de tais bloqueios foi a atuação, ou a falta desta, das universidades durante os protestos pro-Hamas realizados por seus estudantes em 2023 e 2024. Harvard e Columbia são organizações privadas, mas os recursos federais recebidos compõem parte significativa de seus investimentos em pesquisas. Cerca de 68% das receitas de patrocínio (sponsored revenues) de Harvard dedicadas à pesquisa são provenientes de recursos federais americanos. No caso de Columbia, 20% da receita operacional é oriunda da mesma fonte. É evidente que os impactos no desenvolvimento de pesquisas serão brutais e talvez esse seja um dos casos onde o “remédio é pior do que a doença”. Os protestos que motivaram as sanções governamentais representam apenas uma pequena fração da comunidade universitária, distante das contribuições científicas e sociais que definem a reputação destas instituições. A Columbia University Irving Medical Center (CUIMC), braço de pesquisas médicas da organização, foi responsável por realizar o primeiro bem-sucedido transplante de coração em uma criança. A descoberta da Ressonância Magnética Nuclear, base para a tecnologia de imagem por ressonância, a qual rendeu um Prêmio Nobel a Isidor Isaac Rabi aconteceu dentro dos laboratórios da universidade. Desde 1901, a Columbia University conta com 87 laureados com o Prêmio Nobel entre seus ex-alunos, professores e pesquisadores. Cinco dos founding fathers passaram pela universidade. Todos esses departamentos e programas de excelência sofrerão com os cortes de financiamento públicos, levantando questões sobre a proporcionalidade da resposta governamental e se é justo que o trabalho científico seja prejudicado por eventos ocorridos principalmente no âmbito dos movimentos estudantis. O governo americano ancora-se em uma suposta violação do Title VI do Civil Rights Act de 1964, que expressamente proíbe a discriminação com base em raça, cor ou origem nacional em programas e atividades que recebam assistência financeira legal. Ao permitir a realização de protestos que intimidavam os alunos judeus, as instituições conscientemente falharam em evitar que o ato de discriminação acontecesse. De toda forma, o rito legal para o encerramento dos repasses de recursos às universidades demanda uma detalhada investigação com múltiplas audiências e um aviso prévio de trinta dias ao Congresso, o que não foi respeitado. As exigências da administração Trump para cessar os bloqueios são diversas, tais como: supervisão acadêmica do Departamento de estudos do Oriente Médio, Sul da Ásia e África, revisão das políticas de admissões, concessão de autoridade policial total aos oficiais de segurança do campus, punições severas aos manifestantes pró-Hamas, entre outras. Essas medidas não são necessariamente negativas, mas o precedente aberto definitivamente é. Governos vêm e vão. Em uma era de extremos, candidatos com posicionamentos antagonistas competem por popularidade e medidas como o nosso tema geram audiência, cortes para as redes sociais e popularidade com a base eleitoral. As mesmas ferramentas hoje usadas para combater o antissemitismo podem ser usadas amanhã para o oposto. A prerrogativa que permite a intervenção estatal é relativamente simples: as universidades são instituições privadas que recebem doações de empresas, indivíduos e governos. Quanto maior a dependência da organização em um agente só, maior o poder de barganha do doador, independentemente da sua natureza jurídica. As ações do governo Trump de nada diferem de um acionista ativista impondo sua visão estratégica por meio de sua influência em uma empresa. Evidentemente, esse conflito jamais aconteceria, ao menos por pressões governamentais, se toda a estrutura de sustentação financeira das instituições fosse de origem privada e pulverizada, isto é, não tendo um grande doador tomando as rédeas do futuro das organizações. Existe uma distinção fundamental no centro deste debate: a diferença entre liberdade acadêmica e liberdade intelectual. A liberdade acadêmica é associada com o direito inerente aos docentes de ensinar e pesquisar sem controle institucional, no entanto, esses profissionais estão sujeitos às diretrizes de suas universidades e estas possuem o direito legítimo de determinar o que deve ou não ser disseminado dentro de suas instituições. Já liberdade intelectual, conceito mais amplo, engloba o direito de pensar, expressar e comunicar ideias livre de coerção, essencial para o julgamento racional. Quando o governo compulsoriamente utiliza recursos de contribuintes para financiar universidades que promovem ideias que contradizem seus valores pessoais, as suas liberdades intelectuais estão sendo feridas, uma vez que tais recursos arrecadados sob forma de coerção poderiam voluntariamente ser utilizados para o financiamento de universidades e pesquisas alinhados aos valores de cada indivíduo. Não se trata de negar a liberdade acadêmica das universidades, mas de reconhecer que, em uma sociedade genuinamente liberal, a liberdade intelectual dos indivíduos não deveria ser subordinada a outros interesses institucionais. Seria coerente, então, um sistema que obriga cidadãos a financiar a produção e disseminação de ideias às quais se opõem fundamentalmente? Enquanto houver financiamento com recursos públicos, esse conflito entre liberdades permanecerá insolúvel. Nem o governo Trump, nem as universidades demonstram real interesse em resolver este impasse. O governo busca preservar sua influência cultural sobre instituições privadas, enquanto as universidades almejam manter os recursos federais sem qualquer interferência externa. Este cenário apresenta apenas dois desfechos possíveis: universidades sem acesso a verbas públicas ou instituições submetidas às exigências governamentais. Mesmo que as universidades cedam às atuais exigências, não há garantia de pacificação duradoura, novas imposições surgirão, minando ainda mais sua autonomia. Mais preocupante, administrações futuras com orientações ideológicas opostas poderão usar o mesmo precedente para impor exigências contraditórias, criando instabilidade grave para projetos de pesquisa de longo prazo e comprometendo o avanço científico da humanidade. Para a manutenção da liberdade acadêmica das universidades em harmonia com a liberdade intelectual dos contribuintes a solução encontrada é o desligamento gradual do financiamento público das universidades privadas, fornecendo tempo hábil para que elas busquem outras fontes de recursos para substituir as verbas públicas em seu orçamento.