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Economia
Publicado em dezembro 26, 2025
Por IFL-SP

Quando Tudo é Violência, a Violência se Torna Banal

“Estou cansado do ódio dele”. Essas foram as palavras proferidas por Tyler Robinson, assassino confesso de Charlie Kirk, ativista que cometeu o crime de debater ideias em universidades e foi punido com a sua vida, deixando duas crianças sem pai. Essa brutalidade tem muito a nos ensinar sobre os rumos que nossa sociedade está tomando. Revela como uma mentalidade que confunde discordância com agressão vem se espalhando, impondo sua visão de mundo a todo custo e sem medir as consequências de seus atos.

Não se trata de um caso isolado, mas sim de uma cadeia sistêmica de eventos que tornaram a sociedade elástica à violência como um veículo político eficaz para a imposição de ideais que miram a eliminação da liberdade. A novidade não é o modus operandi, mas sim a tolerância a tais ações. Em 2020, os protestos denominados Black Lives Matter, cujo estopim foi o trágico assassinato de George Floyd, resultaram em uma onda de vandalismo, agressões e desrespeito às liberdades individuais, em que 67% dos americanos apoiavam o movimento em seu auge. O mundo se tornou “woke” com o respaldo da mídia tradicional enquanto atletas se ajoelharam durante a execução do Hino Nacional. A lição estava dada: quando a causa parece suficientemente justa, a violência se torna uma ferramenta aceitável. Cinco anos depois, Tyler Robinson aplicaria essa mesma lógica ao apertar o gatilho.

Em dezembro de 2024, um jovem de 26 anos membro de uma proeminente família de Baltimore assassinou com três tiros pelas costas o CEO da United Healthcare, Brian Thompson, casado e pai de duas crianças. Os motivos, descritos em um manifesto, revelavam sua insatisfação com a indústria dos planos de saúde. Esperava-se que tal ato de covardia fosse rechaçado pela população, mas não foi o que ocorreu: manifestações em favor de Luigi Mangione foram vistas ao redor do mundo; pichações em Marselha o chamavam de herói do povo; cerca de 28 mil doações foram realizadas para custear sua defesa, somando aproximadamente 1 milhão de dólares. Uma pesquisa realizada pela Emerson College Polling revelou que 41% dos entrevistados entre 18 e 29 anos acreditam que o assassinato de Brian Thompson foi, de alguma forma, aceitável. Os holofotes se voltaram para Luigi Mangione, enquanto a família de Brian Thompson permaneceu esquecida. Novamente, uma causa percebida como justa serviu de álibi para o uso da violência.

Donald Trump quase se tornou uma vítima fatal do mesmo falso senso de justiça apresentado nos casos anteriores. Em julho de 2024, uma falha constrangedora do Serviço Secreto permitiu que um homem de 20 anos chegasse a centímetros de assassinar o então candidato à presidência. O atirador foi abatido no local, mas as circunstâncias do incidente permanecem nebulosas. A tolerância à violência se manifestaria em números concretos: uma pesquisa do Network Contagion Research Institute revelou que cerca de 55% das pessoas de centro-esquerda acreditam existir justificativa para o assassinato de Trump. Meses depois, uma segunda tentativa ocorreria em um campo de golfe na Flórida.

Houve um tempo em que a distinção entre palavras e violência era evidente até para crianças. Hoje, essa linha foi deliberadamente apagada por instituições que deveriam preservá-la. A ressignificação do conceito de violência começa na academia, onde termos como “violência simbólica” e “microagressões” passaram a ser equiparados à violência física real, criando uma distorção semântica que foi sendo progressivamente institucionalizada em universidades e corporações. A violência simbólica, conceito de Pierre Bourdieu, já nasce falha: propõe que a transmissão cultural de valores dominantes constitui uma forma de violência. Essa equiparação entre herança cultural e agressão física é o erro original, não uma distorção posterior, mas a própria semente da confusão. As microagressões transformaram interações cotidianas em ofensas graves: perguntar de onde alguém vem pode ser rotulado como agressão. A lógica perversa está estabelecida: se palavras são violência, a violência física torna-se autodefesa legítima. Da academia, essas ideias migraram para o mercado de trabalho através de jovens profissionais que exigem sua implementação corporativa. Empresas, temendo represálias ou buscando aprovação social, criaram departamentos de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) que institucionalizaram essa confusão conceitual. Criou-se uma geração que vê violência onde há apenas palavras e vê justiça onde há apenas assassinato.

Após instituído e aceito esse comportamento, a dinâmica das redes sociais o impulsiona e o perpetua. Esse fenômeno é evidente principalmente no caso de Charlie Kirk, onde uma onda de comemorações de sua morte tomou conta das redes sociais. Com poucos cliques, é possível encontrar vídeos de estudantes celebrando a sua morte, além de comentários desprovidos de empatia. A mecânica é relativamente simples: opiniões que chocam são impulsionadas pelos algoritmos, chegando em mais pessoas alinhadas ou propensas a serem alinhadas com essa perspectiva, que reproduzem e escalam ainda mais tais posicionamentos em busca de mais likes. Se o que é extremo choca e dá visibilidade, então cada vez mais pessoas em busca de validação social irão ao extremo para obter engajamento,

criando uma desumanização digital onde assassinatos se tornam apenas conteúdo para consumo, e a morte de um pai de família vira oportunidade para engajamento.

A espiral pode ser revertida, mas exige que enfrentemos ideias incômodas sem recorrer à força. É doloroso ouvir discursos que contradizem nossos valores mais profundos, mas esse é precisamente o preço da liberdade em uma sociedade plural. A resposta não está em silenciar pela violência, mas em exercer nosso direito de discordar, de nos afastar, de escolher. Empresários podem demitir funcionários que celebram assassinatos; cidadãos podem praticar o ostracismo social contra quem glorifica a violência; universidades podem voltar a ensinar que debate robusto não é agressão. Cada um de nós tem o poder de rejeitar essa confusão entre palavras e ações, de recusar instituições que a promovem, de educar a próxima geração sobre a diferença fundamental entre um argumento e um soco. A distinção entre discurso e violência não é apenas um princípio filosófico, é a linha que separa a civilização da barbárie. Charlie Kirk debatia ideias; Tyler Robinson respondeu com balas. Cabe a nós decidir qual desses caminhos nossa sociedade seguirá. A escolha ainda é nossa, e há esperança enquanto houver quem se recuse a cruzar essa linha.


* Thales Batiston Marques é associado do Instituto de Formação de Líderes de São Paulo (IFL-SP).