IFL – SP

Economia
Publicado em dezembro 17, 2025
Por IFL-SP

Quando a IA escuta mais que o chefe: o que isso diz sobre nós?

Segundo uma pesquisa da Workplace Intelligence em parceria com a INTOO (2023), 47% dos profissionais da geração Z afirmam receber melhores conselhos de carreira do ChatGPT do que de seus líderes diretos. À primeira vista, o dado pode parecer um traço geracional. Mas, ao aprofundar os resultados, percebe-se que a questão é mais estrutural do que etária.

Mais da metade dos profissionais entrevistados, de todas as faixas, afirmam sentir-se sozinhos em relação ao próprio desenvolvimento de carreira. E apenas um em cada três sente que seu líder sabe, de fato, orientá-lo.

O dado é chocante à primeira vista, mas o mais incômodo é o que ele revela: a lacuna de escuta e conexão que se instalou entre líderes e liderados.

Estamos atravessando a maior crise de saúde mental da história. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, é o país mais ansioso do mundo. Em 2024 teve o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos, foram 472 mil licenças concedidas, um aumento de 67% em relação à 2023, segundo dados do Ministério de Previdência Social. Tudo isso acontece enquanto vivemos uma digitalização sem precedentes: processos, interações e até emoções vêm sendo mediados por algoritmos, telas e plataformas.

Tudo ficou mais rápido, mais eficiente, com mais opções à disposição e, paradoxalmente, mais solitário. A produtividade cresceu, mas o senso de propósito, pertencimento e vínculo humano parece ter se diluído no caminho.

Na dicotomia entre a hiperconexão digital e a desconexão humana, será que estamos preparados para liderar na era da digitalização de tudo?

Parece que não. Mas ela já começou.

Participei recentemente de um evento com dezenas de lideranças de RH e a mensagem era uníssona: precisamos repensar a gestão. Uma das painelistas apresentou uma previsão de que as novas gerações deverão ter, em média, até 40 empregos ao longo da vida. De acordo com o relatório Work Change Report do LinkedIn, profissionais que ingressam no mercado de trabalho atualmente estão propensos a ter o dobro de empregos ao longo de suas carreiras em comparação com 15 anos atrás. Permanecer dois anos numa empresa já será uma conquista. O foco, portanto, deixou de ser reter. O desafio agora é gerar sentido enquanto esse vínculo durar.

Essa transformação tem tudo a ver com aprendizado. Segundo o painel “Skill Flux: The Death of Lifelong Expertise”, apresentado no último SXSW, a durabilidade média de uma habilidade caiu de 30 para 5 anos. E pode diminuir ainda mais até o fim da década. No Brasil, a pesquisadora Michele Schneider aprofunda esse tema no livro O Profissional do Futuro, mostrando como a obsolescência das competências exige uma ruptura nos modelos tradicionais de desenvolvimento: menos longas jornadas, mais trilhas práticas e sob demanda. Menos controle, mais cultura de aprendizagem ativa.

Não é mais uma questão de saber tudo, é preciso aprender o tempo todo.

O novo papel da liderança é, acima de tudo, emocional. Criar espaços seguros onde seja possível admitir dúvidas, vulnerabilidades e medos. Humildade, empatia e escuta se tornam competências tão estratégicas quanto planejamento e execução. Como defende Michele Schneider, a liderança do futuro se move entre coragem e cuidado, entre performance e presença.

A palavra “humildade” vem de humus, o solo fértil. É daí que deve brotar a liderança do futuro: da consciência de que estamos todos aprendendo, todos sob o mesmo sol. Não há mais espaço para certezas absolutas nem para gurus de ocasião. O que há é a disposição de ser real.

Presença, em tempos digitais, é mais do que estar online. É reconhecer, ouvir, ser acessível. Num contexto de trabalho híbrido, isso se torna ainda mais urgente. Uma pesquisa da Cigna Corporation, com mais de 10 mil trabalhadores de oito países, revelou que 61% dos profissionais se sentem solitários no trabalho, o que compromete engajamento, bem-estar e saúde mental.

Estamos em uma era de mudança constante. A cada novo ciclo, mais curto que o anterior, habilidades se tornam obsoletas e outras nascem. O profissional que prospera é aquele que cultiva o mesmo espírito do aprendiz de uma criança: capaz de andar, tropeçar, levantar-se e seguir, quantas vezes forem necessárias.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “como a IA vai mudar o trabalho?”, mas sim: por que tantos preferem ouvir a IA a seus próprios líderes? E o que isso revela sobre os espaços que deixamos vagos?

A resposta não está em competir com a máquina, mas em ocupar plenamente o que só o humano pode oferecer: o vínculo, o sentido, a presença que transforma um dado em direção e uma dúvida em confiança. A IA pode otimizar tarefas. Pode até aconselhar com base em padrões. Mas ela não reconhece silêncios. Não percebe hesitações no olhar. Não sabe o que você não disse.

Liderar, nesse novo tempo, é assumir esse lugar sutil, e poderoso, de estar onde os algoritmos não alcançam. Não é ser insubstituível por superioridade, mas por profundidade. Porque, ao contrário do que se teme, o futuro talvez não nos peça para sermos mais rápidos que as máquinas, mas mais humanos do que nunca.


Por Maria Cerchi