Mises Fora da Bolha
O ano é 1959, Juan Domingo Perón, controversa figura mais importante do século XX na Argentina estava exilado na Europa e o país passava por um período conturbado em sua estrutura. Nesse contexto, Ludwig von Mises foi até Buenos Aires para uma série de palestras na Facultad de Ciencias Económicas da Universidad de Buenos Aires para alunos dispostos a conhecer alternativas às desastrosas ideias predominantes em sua política nas últimas décadas. Em 1979, seis anos após a sua morte, Margit von Mises, sua esposa, compilou as transcrições destas palestras em um livro intitulado As Seis Lições. As tais lições apresentadas são divididas em: capitalismo, socialismo, intervencionismo, inflação, investimento estrangeiro e, por fim, políticas e ideias. Mesmo com toda a clareza de seus ensinamentos, Mises continua como um autor cujo trabalho é consumido apenas por liberais convictos. Se a sua obra “furar a bolha”, não há dúvidas de que mais pessoas de desvencilharão do paternalismo estatal.
É difícil conhecer alguém que não tenha sido exposto ao conceito da luta de classes de Marx. A tese da existência de um grupo insubstituível e capaz de ter a sociedade na palma das suas mãos através da exploração do trabalhador é uma explicação sedutora, porém irreal e simplista. Existe, de maneira geral, uma concepção equivocada de que o empresário é o agente dominante da sociedade. Pelo contrário, o empresário é apenas uma peça do tabuleiro do livre mercado que está a mercê dos consumidores e que pode ser facilmente substituído por outros empresários que ofereçam um produto mais barato, de melhor qualidade e um melhor atendimento. Em uma economia cada vez mais padronizada e de fácil comparação, é difícil de acreditar que qualquer empresário sem a detenção de um monopólio tenha algum poder de pressão sobre seus consumidores.
Parte da visão de Mises sobre o intervencionismo talvez gere algum desconforto aos liberais mais próximos do Anarcocapitalismo. O autor discorda da frase “O melhor governo é o que menos governa”, pontuando que o governo deve realizar com excelência as funções que lhe são atribuídas. Mises defende que o papel do Estado é proteger as pessoas dentro do país contra as investidas violentas e fraudulentas de bandidos, bem como defender o país contra inimigos externos.
Um dos temas mais assombrosos é controle de preços. Assombroso, pois a cada crise ou tragédia este tema volta a ser posto em pauta por políticos e entusiastas da
heterodoxia. É insustentável congelar preços de um setor sem que se gere uma crise de desabastecimento, os efeitos são contrários aos almejados. Além disso, a conectividade das cadeias de suprimentos gera uma espiral onde a intervenção em cada produto implica em uma necessidade de intervenção em seus predecessores que, ao fim deste looping, perpetua-se um controle de preços em toda a economia, chegando em um desabastecimento sistêmico. Não precisamos ir até a Rússia Soviética para verificar os resultados desses experimentos, já ousamos realizar tais insanidades no Brasil em 1986 com o não tão saudoso José Sarney. O resultado? Exatamente o descrito por Mises em 1959.
Um leitor ainda não convencido da importância de uma economia de mercado para a liberdade talvez pense que existe uma terceira via de solução, o famoso, “nem lá, nem cá”. Existe um problema fundamental nessa abordagem. Permitir que intervenções governamentais sejam realizadas pontualmente abrirá uma prerrogativa para que essas deixem de ser pontuais e passem a se tornar frequentes sob qualquer justificativa que for conveniente.
A inflação é uma forma discreta de arrecadação do governo, mas não a única. O aumento de impostos não é a via predileta para tal, uma vez que é uma escolha impopular e o governo é composto de políticos que buscam se reeleger. Para isso, a melhor forma para o Estado arrecadar recursos é por meio da impressão de papel- moeda. É claro que ninguém, principalmente no Brasil, deseja inflação, portanto essa emissão é travestida sob alguma justificativa vista como nobre aos olhos dos cidadãos. O fato é que existem pessoas e grupos que são beneficiados pela inflação. A emissão de novo dinheiro é como um esquema de pirâmide: ganha quem chega primeiro e os últimos da fila são os prejudicados.
Lord Keynes classifica o ouro como “relíquia bárbara”, buscando uma desindexação da oferta monetária com o volume de reservas de ouro que uma nação dispõe. Para Mises, o padrão-ouro é um sistema capaz de frear a emissão livre de moeda de um governo devido à sua característica de ser independente das políticas governamentais, removendo ou diminuindo o poder deste para gerar inflação. Keynes estava correto na época errada. O ouro é sim uma “relíquia bárbara”, mas obteve esse título apenas após o advento do bitcoin, que funciona como substituto ideal para o ouro.
Constantemente vemos, tanto pelo braço conservador quanto pela esquerda, a argumentação de que estamos vendendo nosso país permitindo que estrangeiros invistam no Brasil. O primeiro despreza o capital chinês, já o segundo desdenha do capital americano, carinhosamente chamando-o de imperialista. Mises, mais uma vez de maneira lúcida, apresenta a importância do capital estrangeiro para o desenvolvimento de uma nação. Países com maior montante de capital investido per capita são países com melhor qualidade de vida, independente da origem do dinheiro. A hostilidade ao investimento estrangeiro somente traz retrocesso.
A vida política é um emaranhado de grupos de pressão que buscam isoladamente defender os seus interesses, sejam eles congelamento de preços, aumento de salários, tarifas protecionistas ou qualquer outra forma que distorça a atuação de um livre mercado em detrimento de seu benefício. O governo longe está de defender os interesses de cidadãos, pelo contrário, é uma instituição cuja estrutura sistematicamente defenderá interesses de minorias com relacionamentos obscuros nas entranhas deste leviatã disfarçado de salvador dos fracos e indefesos.
Ao fim de suas palestras, Mises se mostra um otimista com o futuro da liberdade. Após essa aula espetacular aos argentinos, me pergunto: Por que a Argentina não ouviu Mises? Sua famosa frase, “Somente as boas ideias podem iluminar a escuridão” é uma verdade, mas talvez a escuridão seja maior do que Mises imaginava e precisemos de mais vetores de luz na sociedade.