O futuro da moeda em tempos de incerteza
As tensões geopolíticas recentes e o avanço acelerado das inovações digitais vêm desafiando não apenas a hegemonia do dólar, mas também a própria forma como o dinheiro circula pelo mundo. Um sistema centralizado em torno de moedas de reserva e arranjos tradicionais de pagamentos que parecia estável por décadas agora convive com alternativas decorrentes do momento de profunda transformação que passa pelos criptoativos, blockchain e moedas digitais de bancos centrais, além de novos arranjos que buscam rapidez, menor custo e maior autonomia.
Esse cenário dialoga diretamente com as reflexões que Gustavo Franco externou no ensaio O futuro do dinheiro, em 2020, publicado e disponível no Instituto de Estudo de Política Econômica/Casa das Garças. No referido ensaio, Franco relembra que a moeda é, antes de tudo, uma convenção social. Ou seja, seu valor não está na substância, mas na confiança (daí vem a fidúcia) que a sociedade deposita. Essa confiança atravessou diferentes fases históricas, passando pela da moeda-mercadoria e moeda fiduciária, e hoje se projeta sobre novas tecnologias e experimentos financeiros.
Franco observa que vivemos um momento de pluralidade monetária, em que distintos arranjos coexistem e disputam legitimidade. Essa multiplicidade não é inédita, mas ganha novo alcance com a digitalização e com o papel dos Estados em decidir o que regular, tolerar ou coibir. O futuro, diz o autor, permanece em aberto: prematuro para lições definitivas, mas repleto de promessas e possibilidades.
Nesse contexto de transformação, o Pix surgiu como resposta brasileira às demandas por rapidez, baixo custo e inclusão nos pagamentos. Criado como um arranjo de pagamentos instantâneos, ele sintetizou as tensões descritas por Franco, traduzindo em prática a convergência entre tecnologia, novos hábitos de consumo e o papel das instituições em garantir confiança no sistema monetário.
O Pix ilustra também uma característica particular do arranjo brasileiro, que foi concebido e implantado pelo Banco Central do Brasil, que atua ao mesmo tempo como regulador e empreendedor, ao que Franco destaca que “o regulador leva sua tarefa tão a sério, que toma para si a tarefa de empreender, ou de fazer acontecer o que o setor privado provavelmente faria, mas com enormes desafios para o mundo regulatório”. Essa sobreposição de funções tem suscitado debates sobre o alcance da ação estatal em relação a soluções privadas, ao mesmo tempo em que coloca o Banco Central do Brasil no centro das discussões sobre inovação e regulação monetária. O tema, inclusive, é objeto de discussão recente levantada pelos Estados Unidos.
Em linha com as reflexões de Franco, o economista Paul Krugman chegou a refletir, em julho do corrente ano, se “Has Brazil Invented the Future of Money?”, destacando o Pix e sua adoção massiva, sua eficiência e seu baixo custo como indicadores de inovação monetária global.
Gustavo Franco, que é ex-presidente do Banco Central do Brasil e um dos principais responsáveis pelo Plano Real, que reestabeleceu a estabilidade da moeda no Brasil, conclui seu ensaio refletindo que é cedo para prognósticos, mas destaca que o futuro do dinheiro será mais complexo do que se imaginava, marcado por tensões entre inovação, regulação e confiança. Em meio à incerteza, a história se repete: o dinheiro continua a se reinventar.
Gustavo Franco é uma das vozes mais relevantes no debate econômico brasileiro e estará presente no Fórum Caminhos da Liberdade, que ocorrerá no próximo dia 11 de setembro, no Teatro Vibra, em São Paulo, para conversar sobre os rumos que o Brasil precisa adotar a fim de assegurar estabilidade, crescimento e liberdade de mercado.
Victor Chang Almeida Carvalho – Advogado, com atuação nos mercados financeiros e de capitais. Associado ao Instituto de Formação de Líderes de São Paulo (IFL-SP).